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Pautas | Jornal da USP | 14/03/2019 16:24:09 | 170 Acessos
Soluções de engenharia poderiam reduzir mortes de animais silvestres em rodovias
Premiada com o"Future For Nature Awards", pesquisadora apresenta soluções para alto número de acidentes com animais silv

 O atropelamento de animais silvestres é uma situação muito comum nas estradas brasileiras, representando um real impacto na conservação da fauna. A pesquisadora Fernanda Abra, aluna de doutorado da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, apresenta em sua tese números concretos do Estado de São Paulo e possíveis soluções de engenharia para reduzir os acidentes. Ela afirma que as medidas tomadas no Brasil são insuficientes e sugere projetos mais ambiciosos, como cercamento da rodovia e passagens de fauna.

“O que mais me motivou foi quando eu realmente percebi que o número de animais atropelados em rodovias é gigantesco e isso influencia grandemente na conservação da fauna.” A pesquisa de Fernanda foi vencedora do Future For Nature Awards, organização holandesa que premia jovens conservacionistas. Ela também trabalha em uma empresa de consultoria ambiental que realiza o manejo de fauna silvestre em rodovias, ferrovias e aeroportos.

A pesquisadora tipificou implicações desses acidentes para a fauna local, a segurança humana e a economia. Tudo isso a partir de um levantamento do número de acidentes registrados no Estado de São Paulo em um período de dez anos, além da estimativa de gastos relacionados.

Números surpreendem
Os números mostram que acidentes com animais passam longe de serem casos isolados. Entre 2003 e 2013, a Polícia Militar Rodoviária registrou mais de 28 mil casos de acidentes do gênero nas estradas paulistas. Mas o número de bichos atropelados é ainda maior – o dado contempla apenas casos notificados ao poder público, que geralmente envolvem danos materiais ou físicos ao motorista. A anta-brasileira, maior mamífero da América Latina e ameaçada de extinção, é uma das espécies mais atingidas.

As estatísticas vão além do impacto à biodiversidade. Os atropelamentos trazem um preço alto ao Estado e ao contribuinte. No período avaliado, ela estipula uma estimativa de R$ 56 milhões ao Estado de São Paulo. Esse valor foi avaliado por Fernanda em parceria com o dr. Marcel Hujiser, da Montana State University.

Esse cálculo envolve os custos com as diversas equipes profissionais envolvidas durante e após o acidente, bem como tratamentos hospitalares, remoção de veículos da pista ou reparações ao patrimônio público em decorrência do acidente.

É possível evitar
Diminuir esses números parece um grande desafio, mas é possível com o planejamento técnico adequado. A questão é: há o interesse pelo investimento nessas medidas?

Para reduzir de vez o problema, a melhor maneira é investir em construções ambiciosas já com essa finalidade. Fernanda aponta a necessidade em montar equipes multidisciplinares de profissionais, incluindo engenheiros, ecólogos e biólogos com planejamento em comum para mitigar o problema. A partir disso, a fauna já seria levada em conta nos projetos de engenharia de rodovias.

As medidas de mitigação são as estratégias adotadas nos empreendimentos rodoviários para diminuir o impacto de animais atropelados. Há uma infinidade delas, mas sua efetividade deve ser avaliada.

As principais medidas de mitigação adotadas no exterior são o cercamento das rodovias unidas à passagem de fauna, que reduzem os atropelamentos em até 86%, de acordo com a especialista. Mas outros meios também são sugeridos. Entre eles, estão os viadutos vegetados, sistemas de detecção animal e controle de velocidade em trechos específicos.

Já iniciativas menores, como as placas de alerta que vemos comumente nas rodovias, são tapa-buracos na prática. Segundo Fernanda, a eficácia é mínima, próxima de zero. “Eu vejo no Brasil muita iniciativa de gestor de rodovia querendo colocar placas, por ser barata e fácil de ser instalada. Mas cada real gasto com ela é um real perdido.”

A pesquisa teve orientação da professora Kátia Ferraz, do Departamento de Ciências Florestais da Esalq, e de Marcel Huijser, pesquisador sênior da Western Transportation Institute, Montana State University.

Reportagem e texto: Yasmin Oliveira

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